Quando tinha apenas dez anos, a jovem Elizabeth Lion perdeu seus pais para a tuberculose, uma tragédia que marcou profundamente sua trajetória e redefiniu o destino de sua família.
Seu irmão mais velho, Alistair Lion, então com vinte anos, tornou-se o herdeiro das terras, das responsabilidades políticas e do nobre título de Duque de Lionesse.
Elizabeth, ainda uma menina, cresceu entre salões silenciosos e corredores de luto, observando o peso esmagador que recaía sobre os ombros do irmão, que tentava, ao mesmo tempo, proteger a irmã e sustentar um ducado inteiro.
Enquanto todos esperavam que Elizabeth seguisse o caminho tradicional reservado às jovens da nobreza - tornar-se uma dama exemplar, aprender etiqueta, bordado, dança e política silenciosa - ela nutria ambições completamente diferentes.
Seu coração batia forte pelos relatos heroicos dos cavaleiros, pelas histórias de honra, coragem e sacrifício, e pelas batalhas que moldavam o futuro do reino.
Desde criança, ela se esgueirava para os estábulos e para o pátio de treino, fascinada por armas, armaduras e montarias.
Não desejava ser apenas uma nobre... desejava entrar para a história como cavalheira real.
Mas a Alta Sociedade não perdoa ousadias.
Uma mulher na ordem dos cavaleiros já seria motivo de escândalo; uma mulher da linhagem Lion - irmã de um duque influente - seria considerada afronta direta às tradições mais antigas do reino.
Os conselheiros de Alistair, aliados políticos e matriarcas influentes insistiram que ele controlasse a irmã, temendo que sua obstinação manchasse o prestígio da família.
A cada tentativa de Elizabeth de se aproximar dos treinamentos, surgiam olhares reprovadores, sussurros ácidos e até insultos escondidos sob falsas gentilezas.
Ao completar dezoito anos, porém, Elizabeth tomou a decisão que mudaria tudo: apresentou um pedido formal de ingresso na Ordem Real dos Escudos de Asterion, a elite responsável pela defesa do rei e do coração político do reino.
Sua solicitação chocou a corte.
Muitos riram.
Outros se sentiram ofendidos.
E alguns tentaram impedir o processo ainda nos bastidores.
Alistair, atormentado pela preocupação, pediu que ela reconsiderasse.
Advertiu-a sobre a crueldade dos nobres, sobre as consequências políticas e sobre a possibilidade real de que ela fosse humilhada publicamente.
Mas Elizabeth Lion nunca recuou diante de um obstáculo.
Mesmo com toda a pressão, o rei - conhecido por sua postura pragmática e sua apreço por feitos, não por tradições - permitiu que Elizabeth passasse pelas provas.
O que ninguém esperava era que ela se destacasse de forma tão brilhante.
Sua disciplina era quase obsessiva; sua postura, impecável; seu raciocínio tático, afiado; e sua técnica com a espada rivalizava com a de veteranos.
Aos poucos, os risos abafados desapareceram, substituídos pela apreensão de quem percebia que a jovem estava prestes a quebrar séculos de tradição com pura competência.
Agora, anos depois, Elizabeth Lion finalmente conquistou o tão sonhado título de cavalheira real.
A armadura que veste representa mais do que sua posição: representa o início de uma mudança na história do reino.
Mesmo assim, sua nomeação continua sendo tema de conversas sussurradas em jantares aristocráticos.
Muitos querem vê-la falhar, outros temem o que sua presença representa.
Para alguns poucos, ela é símbolo de coragem e mudança.
Mas Elizabeth aprendeu a caminhar sob todos esses olhares - de admiração ou desprezo - com a cabeça erguida.
Na manhã seguinte, ela receberá sua primeira ordem diretamente do rei.
Às vésperas desse momento decisivo, seu coração pulsa entre ansiedade e determinação.
O que ela enfrentará não será apenas mais um passo em sua carreira; será a missão que definirá seu futuro como cavaleira e como mulher que ousou desafiar a nobreza inteira.
Rumores correm entre os guardas e servos do castelo, sugerindo que o reino vive dias turbulentos.
Há relatos de rebeldes surgindo nas fronteiras, ataques misteriosos a postos isolados e desaparecimentos em vilas afastadas.
Sussurra-se que forças antigas, há muito adormecidas - talvez até frutos da magia, tão temida quanto proibida - estão retornando.
Alguns acreditam que uma conspiração se forma dentro da própria corte.
Elizabeth sabe pouco sobre o que irá enfrentar, mas pressente que sua primeira missão não será trivial.
O rei tem agido com discrição, consultando apenas seus conselheiros mais leais e mantendo encontros privados tarde da noite.
A guarda real está em alerta elevado, mas muitos não compreendem o motivo.
Elizabeth suspeita que será designada para proteger alguém de enorme importância política - ou talvez para investigar acontecimentos que não podem chegar ao conhecimento público para não gerar pânico.
Seja o que for, ela está pronta.
Treinou a vida inteira para isso.
Porém, a maior batalha de Elizabeth não está apenas lá fora: está dentro dela.
A perda dos pais, a pressão do ducado, o olhar frustrado e preocupado de Alistair - tudo isso a assombra.
Seu irmão, embora orgulhoso de sua coragem, ainda teme pelo seu futuro.
Ele sabe que o mundo é cruel com mulheres que quebram padrões, e mais cruel ainda com as que ousam vencer.
A relação entre os dois permanece forte, mas constantemente tensionada entre amor, proteção e expectativas conflitantes.
Elizabeth, entretanto, carrega consigo algo que ninguém mais vê: a certeza de que nasceu para isso.
Não luta por glória, nem por rebeldia - mas por justiça, honra e pela esperança de tornar o reino um lugar mais digno.
Seu sonho de infância finalmente se tornou realidade, mas o preço de seu caminho está apenas começando a ser cobrado.
Na próxima manhã, quando cruzar as portas douradas do Salão de Mármore e se ajoelhar diante de Sua Majestade, Elizabeth Lion não será apenas a primeira mulher da história a integrar a elite de proteção real.
Será um símbolo vivo de coragem em tempos obscuros.
E enquanto o destino do reino se desdobra diante dela, uma coisa é certa:
A primeira missão de Elizabeth Lion não só mudará sua vida - como poderá determinar o futuro de todos.